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Artigo: Novas energias serão bem-vindas
Por Eduardo Pocetti*
O apagão sofrido por 18 estados brasileiros na noite de 10 de novembro ressuscitou o medo de que falte energia para suprir as necessidades da nossa economia aquecida. Ainda que o problema não tenha a ver com incapacidade de atender à demanda, é inevitável questionar: será que o Brasil agüenta o tranco de crescer quase 5% ao ano, como projetado para 2010? E as licitações ambientais? Elas vão continuar atrasando as obras de hidrelétricas importantes?
O crescimento econômico do século 21 deve, necessariamente, estar atrelado à sustentabilidade ambiental. Por isso, qualquer alternativa de geração energética que se adeque a esses critérios deve ser recebida com entusiasmo. Este é o caso da energia eólica: até 14 de dezembro, a Agência Nacional de Energia Elétrica (ANEEL) examinará os cadastros de 441 empreendimentos focados nessa modalidade.
Otimizar a exploração do potencial eólico brasileiro é ainda mais oportuno dada a proximidade da 15ª Conferência Marco das Nações Unidas sobre Mudanças Climáticas (COP), que ocorrerá no período de 7 a 12 de dezembro, na capital da Dinamarca.
O principal objetivo da reunião, à qual o Brasil estará presente, é negociar um documento que substitua o Protocolo de Kyoto (este expira em 2012). A expectativa é enorme, e as pressões exercidas por diversos segmentos da sociedade, idem!
Desde que o Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas da Organização das Nações Unidas (IPCC) reconheceu, por meio de relatório oficial, que a temperatura da superfície terrestre está cada vez mais elevada e que esse aquecimento decorre das atividades humanas, teve início intensa mobilização em torno do tema. Hoje, governos, entidades de terceiro setor, organismos internacionais e iniciativa privada debatem alternativas para dirimir os problemas, levando em conta aspectos ambientais, humanos, científicos e econômicos.
Na contramão dessa aparente unanimidade – e, justiça seja feita, munidos de subsídios científicos consistentes –, outros grupos se opõem ferrenhamente ao que denominam “terrorismo ambientalista”. Embora minoritários, os partidários da idéia de que as mudanças climáticas são cíclicas, naturais e independentes das ações do homem arregimentam cada vez mais apoiadores. É cedo para especular sobre os possíveis desdobramentos da cúpula de Copenhague. Mas, certamente, interesses e contextos múltiplos terão de ser avaliados e discutidos. Enquanto o Protocolo de Kyoto prevê metas diferenciadas conforme o estágio de desenvolvimento econômico de cada país, concedendo limites mais flexíveis para as nações emergentes, a disposição atual das nações ricas sinaliza uma postura muito menos condescendente, o que deverá se traduzir em regras mais duras para todos.
Essa inclinação ficou clara em Luxemburgo, onde os 27 países da União Européia comprometeram-se com a fixação de metas de longo prazo para a redução de emissões de gases de efeito-estufa (GEEs): até 2050, suas emissões de dióxido de carbono, o “grande vilão” do aquecimento global, devem ser de 80 a 95% menores do que em 2005. Uma vez que a população tende a crescer, constitui imenso desafio conciliar as atividades imprescindíveis à manutenção de toda essa gente com o cumprimento das diretrizes ambientais pretendidas pelos europeus.
De antemão, já se sabe que as estratégias necessárias ao cumprimento dessas metas são abrangentes e prevêem ações capazes de agradar até o mais xiita militante verde. Entre elas, incluem-se a obrigatoriedade de submeter aviões e navios a regras de proteção ao clima e o estabelecimento de limites para as emissões do tráfego aéreo e marítimo. Para os países que estão lutando para se posicionar como agentes econômicos fortes e competitivos no mercado mundial, não é tarefa fácil assumir compromissos tão drásticos. Tanto que, durante a cúpula União Europeia-Brasil, realizada dia 6 de outubro em Estocolmo, o presidente Lula deixou claro que o Brasil não teria como assumir a meta de “desmatamento zero”. Admitiu, porém, reduzir 80% do desmatamento até 2020, o que lhe valeu elogios por parte do presidente da Comissão Européia, José Manuel Durão Barroso, que definiu o plano brasileiro como "exemplar”. Hoje, o desmatamento é a principal fonte brasileira de emissões de gases de efeito estufa, e se a meta apresentada por Lula for alcançada, o País deixará de emitir cerca de 5 bilhões de toneladas de gás carbônico anualmente. Comparado à Rússia, à Índia e à China, o Brasil é o país que menos deixa a desejar no tocante à sustentabilidade. Além de dispor de uma das legislações ambientais mais rígidas do planeta, boa parte de suas indústrias já atua em conformidade com o que há de mais moderno em metodologias e recursos técnicos de produção mais limpa. Pioneiro e vice-líder na área de biocombustíveis, o Brasil detém a maior frota de veículos dotados de motor flex do mundo. Sua matriz energética é majoritariamente limpa e renovável, graças ao predomínio das hidrelétricas. Incluir as eólicas neste rol só agregará valor competitivo ao País.
É necessário, porém, encontrar caminhos para superar os entraves à exploração dessa fonte abundante e gratuita – o vento. Em primeiro lugar, a infraestrutura necessária ao seu aproveitamento custa caro, o que dificulta o uso da energia eólica em grande escala. Impõe-se também a necessidade de estudar os potenciais impactos negativos das usinas eólicas nas paisagens e na rota migratória das aves. Nesse sentido, o ideal seria fortalecer um modelo de parceria entre as universidades e o capital privado, onde a expertise intelectual das primeiras seria potencializada pela disponibilidade de recursos do segundo. Desse modo, seria possível imprimir maior velocidade às pesquisas, obtendo respostas rápidas e consistentes.
As empresas que souberem aproveitar as oportunidades, desenvolvendo negócios com o foco ambiental correto, terão chances concretas de colher resultados excelentes e de fortalecer sua participação nos mercados interno e externo.
* Eduardo Pocetti é CEO da BDO no Brasil
Fonte: http://www.brasilengenharia.com.br |
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